
Seminário LACC · 5º Encontro de 2026 · Apresentado por Sayra Catalina Coral · 15 de maio de 2026
Este seminário apresentou uma abordagem abrangente sobre a duração e as características da depressão, com foco especial no Transtorno Depressivo Persistente (Distimia). A Profa. Sayra Catalina Coral, médica psiquiatra da Escola de Medicina da PUCRS e do Hospital São Lucas da PUCRS, conduziu a apresentação abordando epidemiologia, fisiopatologia, diagnóstico diferencial e opções de tratamento, incluindo intervenções avançadas em psiquiatria.
O encontro aprofundou a compreensão sobre as diferentes formas de depressão unipolar e bipolar, o desafio do subdiagnóstico, o impacto do início precoce no prognóstico, e os tratamentos disponíveis para casos resistentes — como ECT, esketamina intranasal e TMS.
Transtorno Depressivo Persistente (Distimia) — diagnóstico, epidemiologia e tratamento
Profa. Sayra Catalina Coral — Psiquiatra, Escola de Medicina PUCRS / Hospital São Lucas
Ligantes, estudantes e profissionais de Psicologia e Medicina
Seminário online com debate e perguntas ao vivo
Os pilares conceituais que estruturam a compreensão da depressão persistente — do diagnóstico à fisiopatologia e às intervenções avançadas.
Humor deprimido crônico por pelo menos dois anos em adultos, com sintomas menos intensos que o TDM, mas com comprometimento funcional significativo nas esferas pessoal, social e profissional.
Ocorre quando um paciente com Distimia desenvolve um episódio de Transtorno Depressivo Maior sobreposto, com piora abrupta dos sintomas e maior risco de suicídio.
Depressão maior moderada a grave que não responde a pelo menos duas tentativas de tratamento com antidepressivos em doses e tempo adequados.
Teoria clássica que atribuía a depressão ao déficit de serotonina, noradrenalina e dopamina — hoje considerada simplista e amplamente revisada pela literatura científica.
Modelo atual que integra fatores genéticos, epigenéticos, ambientais, traumas na infância e estresse crônico — substituindo explicações monocausais.
Procedimento seguro com mais de oitenta anos de uso, indicado para depressões graves, resistentes ou com catatonia, realizado com anestesia e relaxante muscular.
Esketamina intranasal e Estimulação Magnética Transcraniana — tratamentos avançados disponíveis para depressão resistente, com crescente evidência científica.
Quanto tempo pode durar uma depressão e por que ela é frequentemente subdiagnosticada?
Como diferenciar Distimia, Depressão Recorrente e Depressão Resistente ao Tratamento?
Qual o impacto do início precoce da depressão persistente no prognóstico do paciente?
Como os traumas na infância influenciam o desenvolvimento de transtornos depressivos?
De que forma os distúrbios do sono se relacionam com o desenvolvimento de transtornos mentais?
Como pacientes de baixa renda podem acessar tratamentos avançados em psiquiatria?
A depressão pode durar de duas semanas à vida toda; o TDP é definido por humor deprimido por pelo menos dois anos em adultos.
O TDP é frequentemente subdiagnosticado porque pacientes normalizam o sofrimento, interpretando os sintomas como traços de personalidade.
A desesperança é um dos principais marcadores de risco de suicídio e deve ser sempre investigada na avaliação clínica.
O início precoce (antes dos 21 anos) está associado a pior prognóstico, maior cronicidade e histórico relevante de traumas na infância.
O uso de escalas padronizadas (PHQ-9, Hamilton, Beck) é recomendado pelo CANMAT 2023 para monitorar gravidade e resposta terapêutica.
ECT, esketamina intranasal e TMS são intervenções avançadas disponíveis para depressão resistente ao tratamento.
Transtornos depressivos unipolares já ocupam o primeiro lugar em carga de doença no mundo; o Brasil é o 5º país com maior número de casos.
O Transtorno Depressivo Persistente é caracterizado por humor deprimido presente na maior parte do tempo por pelo menos dois anos em adultos (um ano em crianças e adolescentes). Seus sintomas causam comprometimento funcional significativo, ainda que frequentemente subdiagnosticados.
Baixa autoestima, baixa energia, desesperança, visão negativa da vida, dificuldade de concentração e alterações de sono e apetite — menos intensos que no TDM, mas cronicamente presentes.
Pacientes, familiares e profissionais tendem a normalizar o sofrimento. O próprio paciente frequentemente afirma "sempre fui assim", dificultando a busca por tratamento.
Prevalência ao longo da vida entre 1% e 6% da população geral. Mulheres são mais acometidas, representando aproximadamente dois terços dos casos. O início ocorre tipicamente na infância tardia, adolescência ou início da vida adulta.
Associado a pior prognóstico, maior cronicidade, mais recaídas, maior prejuízo interpessoal e histórico relevante de traumas na infância: negligência emocional, abuso físico, bullying e abandono.
Alta taxa de comorbidade com transtornos de ansiedade, transtornos aditivos e transtornos de personalidade. Estima-se que 30% a 50% dos transtornos depressivos evoluam para depressão resistente.
A diretriz reforça que a cronicidade é a característica central para o diagnóstico, e que o prejuízo funcional — embora muitas vezes sutil — é acumulativo ao longo dos anos mais produtivos da vida.
Curso sempre crônico, sem oscilações significativas. Humor deprimido de baixa intensidade, mas continuamente presente por no mínimo dois anos.
Transtorno Depressivo Maior com múltiplos episódios ao longo da vida, com períodos de remissão entre eles. Não é contínua como a Distimia.
Não responde a pelo menos duas tentativas com antidepressivos em doses e tempo adequados. Pode ocorrer em qualquer subtipo depressivo.
Paciente com Distimia desenvolve episódio depressivo maior sobreposto. Sinais: aumento abrupto da intensidade, anedonia importante, piora da funcionalidade e surgimento ou intensificação de ideação suicida.
Especialmente o Tipo II, cujas depressões crônicas e arrastadas podem se assemelhar à Distimia. O CANMAT 2023 recomenda perguntar diretamente ao paciente se já vivenciou:
Episódios distintos de euforia ou irritabilidade fora do padrão habitual do paciente.
Comportamentos impulsivos inexplicados, compras descontroladas ou decisões precipitadas.
Dormia pouco mas se sentia disposto; mente acelerada com muitas ideias simultâneas — sinais de possível episódio hipomaníaco ou maníaco.
O tratamento do Transtorno Depressivo Persistente deve ser contínuo e longitudinal. O CANMAT 2023 recomenda psicoterapia como primeira linha para casos leves, e a combinação com farmacoterapia para casos moderados a graves.
Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) com maior evidência científica. Tratamento contínuo e longitudinal, voltado à reestruturação de padrões cognitivos crônicos.
ISRSs (escitalopram), inibidores duplos (venlafaxina), vortioxetina (multimodal, menos efeitos colaterais), bupropiona e mirtazapina. Escolha conforme perfil de efeitos colaterais e condição financeira.
Revisão sistemática com mais de 14.000 participantes identificou quatro intervenções com maior eficácia complementar: dança, caminhada ou corrida, atividades de força e ioga.
Para depressão resistente: ECT, esketamina intranasal e TMS (em parceria com o InsCer) — disponíveis no Hospital São Lucas da PUCRS.
ECT (Eletroconvulsoterapia): Mais de oitenta anos de uso. Realizada com anestesia e relaxante muscular. Indicada para depressões graves, catatônicas ou com risco de vida. Efeitos colaterais transitórios (cefaleia, leve comprometimento de memória de curto prazo). Pode promover neuroplasticidade e sinaptogênese.
Esketamina Intranasal: Tratamento avançado com ação rápida. Alto custo no Brasil; em países como a Espanha já está disponível na rede pública. A PUCRS trabalha para viabilizar cotas sociais.
TMS (Estimulação Magnética Transcraniana): Disponível em parceria com o Instituto do Cérebro (InsCer). Cefaleia e formigamento são efeitos esperados, mais intensos no início e que tendem a diminuir. Psicoeducação é a estratégia principal para adesão.
Monitoramento com escalas padronizadas: PHQ-9, Hamilton e Beck são recomendadas pelo CANMAT 2023 para monitorar gravidade, resposta terapêutica e risco de suicídio ao longo do tratamento.
"A grande maioria dos efeitos colaterais da ECT é transitória. Pacientes com depressões crônicas já apresentam declínio cognitivo pela própria doença, e a ECT pode promover neuroplasticidade e sinaptogênese, contribuindo para a recuperação cognitiva."
— Sayra Catalina Coral
O caso clínico apresentado ilustrou a evolução de uma provável Distimia não tratada para um episódio depressivo maior grave com catatonia durante a pandemia — e a eficácia das intervenções avançadas.
Provável Distimia não tratada: Longa história de humor deprimido crônico, sem diagnóstico ou intervenção ao longo dos anos.
Episódio depressivo maior grave com catatonia: Desencadeado durante a pandemia, com comprometimento motor e comportamental severo.
Teste farmacológico com lorazepam: Resposta positiva confirmou o diagnóstico de catatonia e orientou a indicação de ECT.
ECT com resposta significativa: Melhora evidente após cinco sessões; recuperação de funcionalidade e qualidade de vida após quinze sessões no total.
Ilustra como a Distimia não reconhecida pode progredir para quadros graves e potencialmente fatais quando não tratada.
Síndrome motora e comportamental que pode estar associada a quadros depressivos graves — e que responde bem à ECT.
Demonstra a eficácia real de intervenções avançadas mesmo em idosos com quadros graves e crônicos, contrariando preconceitos sobre o procedimento.
Assistir ao depoimento do paciente seu Álvaro no canal do YouTube da PUCRS/Hospital São Lucas sobre sua experiência com depressão grave e tratamento com ECT
Interessados em estágios na nova ala do Hospital São Lucas da PUCRS (incluindo estudantes de psicologia): entrar em contato com Sayra Catalina Coral diretamente ou por meio de Luísa
Participar do evento "Atualização em Transtornos Mentais Graves (TMG)" — 16/05, das 8h30 às 15h40, no Instituto do Cérebro (InsCer) da PUCRS
Manter 75% de presença nos seminários para garantir certificado ao final do ano
Interessados em apresentar seminários: contatar Luísa, Enzo ou Felipe (duplas possíveis!)
Atualização da Canadian Network for Mood and Anxiety Treatments sobre o manejo do Transtorno Depressivo Maior em adultos, publicada em 2024. Referência internacional utilizada como base da apresentação.
Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (5ª ed. revisada) e Classificação Internacional de Doenças (11ª ed.) — bases para os critérios diagnósticos apresentados. A CID-11 está em processo de implementação no Brasil.
"The serotonin theory of depression: a systematic umbrella review of the evidence" — publicado na revista Molecular Psychiatry. Revisa criticamente a hipótese monoaminérgica da depressão.
Depoimento do paciente seu Álvaro sobre sua experiência com depressão grave, catatonia e tratamento com eletroconvulsoterapia — recomendado pela própria Sayra Catalina Coral durante a aula.
Depressão Persistente