
Seminário LACC · 1º Encontro de 2026 · Apresentado por Felipe Tombini · 06 de março de 2026
Este seminário apresentou uma introdução abrangente sobre a entrevista diagnóstica inicial na prática clínica da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC). Felipe Tombini, colaborador da diretoria de pesquisa da LACC, conduziu a apresentação enfatizando a importância de uma primeira sessão bem estruturada para estabelecer diagnósticos precisos, criar aliança terapêutica e iniciar o tratamento de forma eficaz.
O encontro também marcou a apresentação da nova diretoria da liga e a divulgação do cronograma completo de atividades para 2026, incluindo workshops, eventos abertos e seminários programados ao longo do ano — consolidando a LACC como espaço de formação contínua e de excelência em TCC.
Entrevista Diagnóstica Inicial em TCC
Felipe Tombini — Diretoria de Pesquisa LACC
Ligantes, estudantes e profissionais de Psicologia
Seminário online com debate e perguntas ao vivo
Os pilares conceituais que estruturam a entrevista diagnóstica em TCC — do vínculo terapêutico à organização do raciocínio clínico.
Vínculo emocional baseado em empatia, confiança e acordo sobre metas e tarefas entre terapeuta e paciente. Tão importante quanto o domínio técnico.
Conexão profissional onde o indivíduo se sente à vontade, não julgado e compreendido, com seus limites respeitados pelo terapeuta.
Processo de formulação de possíveis diagnósticos baseado na demanda apresentada pelo paciente durante a entrevista inicial.
Processo de descarte sistemático de transtornos que apresentam sintomas semelhantes, garantindo maior precisão diagnóstica.
Técnica de Renata Brasil: cada "gaveta" representa um tema diagnóstico que deve ser completamente investigado antes de abrir outra.
Pré-contemplação, contemplação, determinação, ação, manutenção e recaída — ciclo que orienta o manejo da motivação para mudança.
Acordos estabelecidos sobre natureza do serviço, abordagem TCC, frequência, valores, objetivos e questões éticas de sigilo.
Como criar aliança terapêutica efetiva desde a primeira sessão?
Quais habilidades interpessoais são essenciais para estabelecer rapport?
Como organizar a entrevista para coletar informações sem transformá-la em inquérito?
Quando e como comunicar o diagnóstico ao paciente, considerando diferentes perfis?
Como identificar e trabalhar com a motivação do paciente para mudança?
Quais informações sobre medicações psiquiátricas o psicólogo deve conhecer?
A entrevista diagnóstica tem múltiplas funções simultâneas: conhecer, avaliar, vincular e planejar.
Aliança terapêutica é tão importante quanto o conhecimento técnico — sem vínculo, a terapia não progride.
Sempre questionar ideação suicida, mesmo quando o paciente aparenta estar bem.
Motivação para mudança pode ser desenvolvida e encorajada pelo profissional.
Conhecimento básico em psicofarmacologia melhora a comunicação com psiquiatras.
Perguntas abertas são sempre preferíveis a perguntas fechadas na entrevista.
Coerência entre linguagem verbal e não verbal demonstra interesse genuíno.
A entrevista diagnóstica inicial serve como o alicerce de todo o processo terapêutico subsequente. Vai muito além de coletar sintomas — é uma sessão multifuncional que orienta todo o cuidado clínico.
Compreender o paciente antes de qualquer intervenção, incluindo se o terapeuta será o profissional adequado para as necessidades específicas apresentadas.
Reunir o máximo de informações relevantes no menor tempo possível para criar conceitualização cognitiva inicial e plano de tratamento.
Descobrir como experiências passadas contribuem para os problemas atuais, mesmo que o paciente não apresente patologia específica.
Dar início ao vínculo terapêutico com o cliente desde os primeiros minutos da primeira sessão.
Avaliar se medicações ou tratamentos suplementares podem ser indicados, e já obtê-las da ficha de espera preenchida pelo paciente.
Determinar frequência das sessões e duração do tratamento adequadas para o perfil e a demanda do paciente.
Esta estrutura não deve ser seguida rigidamente — não se usa um timer. Ela serve como guia mental para garantir que todos os aspectos importantes sejam abordados. Especialmente no início da prática, é comum "se embanhar" e deixar o paciente falar excessivamente sobre temas menos relevantes, correndo depois para fazer perguntas essenciais no final.
Ficha de espera: dados pessoais, histórico, escolaridade, medicações em uso e motivo da consulta — preenchida antes da sessão para economizar tempo.
Natureza do serviço e abordagem TCC: familiarizar o paciente com pensamentos automáticos e crenças desde o início.
Logística: frequência, estimativa de duração, valor da sessão, política de cancelamento.
Objetivos, anotações e sigilo: esclarecer como as anotações serão feitas e os limites éticos do sigilo profissional.
O terapeuta deve ajustar sua postura conforme o funcionamento do entrevistado:
Pode falar incessantemente — o terapeuta deve ser mais ativo em direcionar a conversa e estabelecer limites gentis.
Tende a ser mais lacônico — o terapeuta deve preencher mais espaço com perguntas e comentários acolhedores.
"Uma coisa muito legal é que quando a gente sabe já a medicação, a gente já tem pistas de onde tem que focar boa parte das nossas perguntas, para onde que a gente tem que ir."
— Izabela, vice-presidente da LACC
Felipe dedicou parte significativa da apresentação à importância da aliança terapêutica, com uma analogia provocativa: "A gente pode ser a pessoa que mais conhece de depressão do mundo, temos as melhores técnicas — só que se a gente não consegue fazer esse vínculo com o nosso paciente, não adianta em nada. A terapia não vai adiante."
Empatia, confiança e acolhimento sem julgamento — definição de Judith Beck para a aliança terapêutica.
Terapeuta e paciente definem juntos o que esperam alcançar com o tratamento — construção colaborativa.
Consenso sobre técnicas, exercícios e abordagens utilizadas para alcançar as metas estabelecidas em conjunto.
Obter e responder adequadamente ao feedback do paciente em todas as sessões — diretriz de Beck.
Manter expectativas realistas para o cliente e para si mesmo — é esperado que clientes apresentem desafios.
Ser um ser humano bom na sala para ajudar o cliente a se sentir seguro e acolhido genuinamente.
Tratar todos os clientes em todas as sessões como gostaria de ser tratado se fosse um cliente.
Trabalhar de forma colaborativa, obtendo e respondendo apropriadamente ao feedback.
"Eu comecei a olhar para o meu supervisor e via que sempre que ele falava com a pessoa, ele estava balançando a cabeça, fazendo expressões, mexendo as mãos. Fala com uma pessoa que está olhando pra ti, balançar a cabeça — parece que tu tá sendo muito mais escutado."
— Felipe Tombini
A hipótese diagnóstica começa a ser formulada na mente do terapeuta assim que o paciente apresenta sua demanda. A partir daí, o raciocínio clínico deve contemplar o diagnóstico principal, os diagnósticos diferenciais e as possíveis comorbidades, sempre utilizando perguntas abertas ("me conta um pouco sobre...") em vez de perguntas fechadas ("você fuma?").
Conceito proposto por Renata Brasil: o paciente é como uma cômoda e cada pergunta do terapeuta abre uma gaveta. O erro clássico é abrir novas gavetas diagnósticas antes de fechar completamente a que está sendo investigada.
"'Eu estou muito triste.' → Depressão. 'Estou bebendo muito.' → Uso de substâncias. 'Porque fui abusado.' → Trauma. 'Não conseguia prestar atenção.' → TDAH."
O terapeuta pulou de diagnóstico em diagnóstico sem investigar completamente nenhum. A abordagem correta: "Quero entender mais sobre seu consumo de álcool, mas agora preciso que a gente continue falando sobre essa tristeza. Tudo bem?"
Transtornos parecidos podem ser confundidos; ao contrário de outras áreas, a psicologia depende fortemente da observação clínica.
Um diagnóstico correto orienta protocolos mais eficazes e reduz encaminhamentos inadequados.
Paciente com diagnóstico de bipolaridade que, após avaliação cuidadosa, revelou transtorno esquizoafetivo, o que faz uma diferença crucial no tratamento.
"No início, vocês vão esquecer um monte de coisa, vão perguntar coisas que não eram tão importantes. E tá tudo certo, não tem problema. Conforme a gente vai pegando experiência, a entrevista vai melhorando."
(Felipe Tombini)
A motivação é relevante para qualquer mudança comportamental, não apenas em transtornos por uso de substâncias. Um ponto fundamental: quando ocorre recaída, a pessoa não volta à estaca zero: cada recaída representa uma evolução em relação ao ponto de partida inicial.
Sem intenção de mudar
Consciência do problema
Planejamento para mudança
Mudança ativa
Sustentação da mudança
Retorno a hábitos antigos
Aplicar entrevista motivacional no estágio errado pode levar ao manejo incorreto e à desistência do tratamento.
Se o paciente veio porque "minha mulher me mandou", é mais produtivo trabalhar a motivação antes de implementar qualquer protocolo.
Para pacientes pré-contemplativos com uso de substâncias, use "problema" em vez de "dependente químico" para evitar reatância.
Há formas de abordar temas sensíveis com menos desconforto: comece aos poucos, introduzindo o assunto gradualmente e ampliando conforme o vínculo permite. Na dúvida, sempre pergunte.
"A gente veste máscaras para viver muitas vezes na sociedade. Mesmo quem aparenta estar bem feliz pode estar carregando algo muito pesado."
(Stephanie, diretora de extensão LACC)
Não é necessário memorizar tudo — mas ao pesquisar o que o paciente toma, o terapeuta obtém pistas diagnósticas valiosas. Exemplo: lítio + depakote + lamotrigina → provável transtorno bipolar.
"Quando a gente tem esse conhecimento, a gente acaba podendo estar mais no mesmo nível com o psiquiatra, falando a mesma língua."
— Stephanie
Falar de forma clara e acessível, evitando termos técnicos e "psicologuês".
Explicar que o diagnóstico é uma hipótese, não um rótulo ou estigma definitivo.
Psicoeducar e contextualizar com episódios da vida do paciente sempre que possível.
Validar o sofrimento, normalizar reações e apresentar possibilidades de tratamento.
Fortalecer o vínculo e esclarecer dúvidas, sem julgamento moral de qualquer natureza.
"As doenças mentais têm uma visão negativa em cima delas. Se tu fala que tá com problema no fígado, todos vão te acolher. Mas se tu fala que tá triste, o pessoal já nem quer chegar muito perto. Então conseguir dar nome, falar que
Entrevista Diagnóstica em TCC